domingo, 19 de fevereiro de 2012

O menino judeu - parte 1


Eu tinha 13 anos, quando comecei a me dar conta de tudo o que acontecia ao meu redor. Os sábados, as velas, as músicas, o idioma. Tudo aquilo que sempre esteve presente no meu dia-a-dia, agora se mostrava de uma forma nova e enriquecedora.

Nasci em São Paulo, em uma comunidade judaica, e estudei a vida inteira em colégio israelita. Ser judeu não era nenhuma novidade. As pessoas do meu meio eram iguais a mim.

A minha vida mudou radicalmente após o meu Bar Mitzvah. Meus pais passaram por dificuldades econômicas após um mau empreendimento e tiveram que fechar nosso restaurante, foi aí que nos mudamos para Minas Gerais.

O dia da despedida foi triste. As pessoas choravam e eu abracei meus amigos com força, pois talvez não voltasse a vê-los tão cedo. Mamãe tentava me acalmar, dizendo que logo voltaríamos, mas eu sabia que não era verdade. Meu irmão menor não entendia o que estava acontecendo, acho que por isso ele estava sorrindo.

Eu não queria ter que me mudar. Como eu ia entrar de repente em uma nova escola, em um novo bairro? E se os judeus de lá não fossem iguais aos daqui?

A viagem de carro foi longa, chegando ao hotel, deixamos nossas bagagens, papai foi se encontrar com seu novo chefe, e eu e meu irmão saímos com a mamãe para procurar uma casa ou apartamento. Meu pai iria ganhar um bom dinheiro.

Era sexta, e naquele sábado, rezamos dentro do quarto do hotel. Não acendemos velas, o que eu achei estranho. Mas mamãe explicou que as pessoas ali não entendiam nossos costumes. Naquele Cabala Shabath senti muita saudade da nossa casa e do nosso bairro, aonde todos guardavam o sábado.

Em uma semana já tínhamos alugado um bom apartamento, não tão grande quanto a nossa casa, mas ainda assim bom. Nossa mudança chegou e nos encarregamos de tentar arrumar. Foi mais rápido do que pensei.

Papai arrumou todos os objetos sagrados, e juntos colocamos a Mezuzá na porta, a cada dia nosso apartamento se tornava cada vez mais um lar judaico, e eu enfim ia me sentindo em casa.

Nosso primeiro shabath na nova casa foi um tanto quanto estranho. Mamãe estava ansiosa por demais que tudo saísse perfeito para que eu e meu irmão sentíssemos que ainda éramos judeus, apesar de não termos vizinhos judeus, ou sequer ter conhecido algum desde que chegamos naquela cidade. Mas sentado àquela mesa, rezando e celebrando, percebi que acontecesse o que acontecesse, jamais deixaríamos de ser uma família.

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