
Em 1492 ocorreram na Espanha três acontecimentos muito importantes. Tais fatos, extraordinários na visão da época, hoje nos parecem característicos da nova sociedade que, no final do século XV e no decorrer dos dois séculos seguintes, surgi, lenta e penosamente, na Europa ocidental. Como nossa cultura ocidental moderna se desenvolveu nesse período, o ano de 1492 também esclarece parte de nossas preocupações e de nossos dilemas. O primeiro fato ocorreu em 2 de janeiro quando os exércitos de Fernando e Isabel, os Reis Católicos, cujo casamento acabara de unir os reinos ibéricos de Aragão e Castela, conquistaram a Cidade-estado de Granada. A multidão viu com profunda emoção o estandarte cristão hasteado nos muros da cidade, e, quando a notícia se difundiu, os sinos repicaram triunfalmente em toda a Europa, pois Granada era o último baluarte islâmico no seio da cristandade. As cruzadas contra o Islã fracassaram, porém os muçulmanos foram expulsos da Europa. Em 1499 os muçulmanos que viviam na Espanha puderam escolher entre a conversão ao cristianismo e a deportação; depois disso a Europa ficaria livre deles por alguns séculos. O segundo acontecimento desse ano momentoso deu-se em 31 de março, quando Fernando e Isabel assinaram o Edito da Expulsão, que baniria os judeus da Espanha, aos quais também se apresentou a possibilidade de optar pelo batismo ou desterro. Muitos deles eram tão apegados a “al-Andalus” (nome árabe do antigo reino islâmico) que se converteram à cristã e permaneceram na Espanha; entretanto cerca de 80 mil judeus partiram para Portugal e 50 mil para o novo império Otomano, onde tiveram calorosa acolhida. O terceiro fato refere-se a uma das figuras presentes à ocupação cristã de Granada. Em agosto, Cristóvão Colombo, protegido de Fernando e Isabel, zarpou da Espanha com o objetivo de encontrar uma nova rota comercial para a Índia e descobriu a América.
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A reconquista dos antigos territórios muçulmanos de al-Andalus constituiu uma catástrofe para os judeus da Ibéria. No Estado islâmico as três religiões – judaísmo, cristianismo e islamismo – conviveram em relativa harmonia por mais de seiscentos anos. Os judeus em particular viveram na Espanha uma renascença cultural e espiritual e não sofreram os pogroms que atormentavam seu povo no restante da Europa. Contudo, à medida que avançava pela península, conquistando mais e mais territórios ao Islã, o exército dos Reis Católicos levava junto seu anti-semitismo. Em 1378 e 1391 os cristãos atacaram as comunidades judaicas de Aragão e Castela, arrastaram seus moradores até a pia batismal e, ameaçando mata-los, obrigaram-nos a converter-se ao cristianismo. Em Aragão os sermões do dominicano Vincent Ferrer (1350-1419) frequentemente inspiravam desordens anti-semitas; e o frade ainda organizava debates públicos entre rabinos e cristãos com o objetivo de desacreditar o judaísmo. Alguns judeus tentaram evitar a perseguição abraçando voluntariamente o cristianismo. Oficialmente denominados conversos, eram chamados pelos cristãos de marranos (porcos), designação ofensiva que alguns deles assumiram com orgulho. Os rabinos condenavam a conversão, mas a princípio os cristãos-novos conquistaram fortuna e sucesso. Alguns galgaram altas posições no clero; outros se casaram com membros de ótimas famílias; e muitos enriqueceram no comércio. Com isso criaram novos problemas, pois os cristãos-velhos se revoltaram contra a sua mobilidade ascendente. Entre 1449 e 1474 investiram muitas vezes contra os marranos, matando-os, destruindo suas propriedade ou expulsando-os da cidade.
Tal situação alarmava Fernando e Isabel. Ao invés de manter seu reino unido, a conversão dos judeus estava provocando outras divisões. Também preocupavam os soberanos as notícias de alguns cristãos-novos retornavam à antiga crença e a professavam secretamente. Dizia-se que compunham um movimento clandestino no empenho em reconduzir outros conversos ao rebanho judaico. Os inquisidores receberam ordens de prender esse judeus, que, acreditava-se, seriam identificados por abster-se de carne de porco ou de trabalhar aos sábados. Os suspeitos sofriam tortura até confessar sua infidelidade e denunciar outros “judaizantes” clandestinos. Assim a Inquisição matou cerca de treze mil conversos nos doze primeiros anos de sua existência. Na verdade muitos dos que foram mortos ou presos ou tiveram suas propriedades confiscadas eram católicos fervorosos, sem nenhuma tendência judaizante. Diante disso muitos conversos se tornaram cínicos e cépticos em relação à sua nova fé.
Quando conquistam Granada, 1492, Fernando e Isabel herdaram a enorme população judaica da cidade. Consideram a situação incontrolável, assinaram o Edito da Expulsão para resolver de uma vez por todas o problema dos judeus na Espanha. Cerca de 70 mil judeus se converteram o cristianismo e permaneceram no país para padecer nas mãos da Inquisição; outros 130 mil, como vimos, partiram para o exílio. Os judeus do mundo inteiro choraram o desaparecimento da população judaica espanhola como a maior catástrofe que se abatera sobre eles desde a destruição do Templo de Jerusalém, em 70 d.C., quando perderam sua terra e foram obrigados a exilar-se em comunidade dispersas, fora da Palestina, conhecidas coletivamente como Diáspora. A partir de então o exílio se tornou um tema constante e doloroso em sua vida. A expulsão da Espanha em 1492 ocorreu no final de um século em que os judeus foram rechaçados de vários locais da Europa: de Viena e Linz em 1421; de Colônia em 1424; de Augsburg em1439; da Baviera em 1442; da Moravia em 1454; de Perugia em 1485; de Vicenza em 1486; de Parma em 1488; de Milão e Lucca em 1489; da Toscana em 1494. Pouco a pouco eles se dirigiram para o leste, criando na Polônia o que acreditavam ser um lugar seguro. O exílio parecia agora uma parte endêmica e inevitável em sua condição.
Karen Armstrong. Em nome de Deus, o fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo.
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